O não deveria ser suficiente: um relato sobre cabelos

Desde sempre recordo-me da vontade das pessoas de tocar no meu cabelo e de eu nunca ter gostado. Sinceramente, não sei dizer se é uma questão cultural ou pessoal mas sinto que estão a invadir o meu espaço, até porque grande parte das negras usam extensões ou perucas e é bastante desconfortável alguém tocar principalmente sem permissão.

Nunca consegui perceber o que leva tantas pessoas a querer tocar no meu cabelo e nos cabelos africanos em particular. Eu não sinto essa necessidade em relação ao cabelo dos outros, independentemente do penteado que elas tenham, então porque tem de tocar no meu?

O não deveria ser suficiente, mas parece que estas mãos querem uma resposta mais completa para não poderem tocar. Então, tento dizer, mais de uma vez, que não gosto que toquem no meu cabelo com um sorriso, sem ser muito rude ou bruta.

Antes do “posso tocar?” vem um olhar desconfiado, olhar de quem não sabe ao certo se é mesmo um cabelo, se é áspero, se é fofo, um olhar que nos faz sentir um ponto de atração.

Em seguida, vêm os comentários e as perguntas: “É muito fofo”, “Deve dar muito trabalho”, “Como é que consegues lavar o cabelo?”, “Esse cabelo é teu?”, “O que colocaste no cabelo”, “Parece palha de aço”, etc., independentemente do comentário ser positivo ou não incomoda.

Para além de não saber onde as pessoas andaram com as mãos e não me sentir à vontade com as mãos delas no meu cabelo, eu demoro algum tempo a arranjá-lo então não quero que ninguém me despenteie por curiosidade.

Também já pensei em deixar as pessoas tocar só para desmistificar o assunto do nosso cabelo, que é um cabelo normal, mas diferente, como todos os outros são, podia ser que se cansassem e deixassem de tocar, mas isso não acontece, além disso iria estar a satisfazer a curiosidade dos outros e estaria incomodada á mesma, o que não faz muito sentido.

Por isso antes de perguntar não mexas no cabelo, a resposta provavelmente será não, e o não deveria ser suficiente.