Consciência pra quem?

Segundo o dicionário Aurélio, 7ª edição, a palavra consciência significa:

1. atributo pelo qual o homem pode conhecer e julgar sua própria realidade. 2. faculdade de estabelecer julgamentos morais dos atos realizados. 3. cuidado com que se executa um trabalho, se cumpre um dever; senso de responsibilidade. 4. conhecimento. 5. percepção imediata dos acontecimentos e da própria atividade psíquica.

Dia 20 de novembro - criado em 1971 para comemorar a tomada de consciência da comunidade negra sobre seu valor e sua contribuição ao país. Também escolhido por ser o possível dia da morte de Zumbi dos Palmares, que ocorreu em 1695.

A historiadora da Fundação Cultural Palmares, Martha Rosa Queiroz, diz que o dia da consciência negra surgiu para lembrar o triste assassinato de Zumbi, que é considerado herói nacional por lei, e de combate ao racismo. Zumbi foi o líder do Quilombo dos Palmares, localizado em Alagoas, considerado o maior quilombo do Brasil, que chegou a contar com uma população de 20 mil escravos foragidos das fazendas e dos engenhos e teve duração de décadas. Este personagem histórico representou a luta do negro contra a escravidão, no período do Brasil Colonial. Ele morreu em combate, defendendo seu povo e sua comunidade. Os quilombos representavam uma resistência ao sistema escravista e também uma forma coletiva de manutenção da cultura africana aqui no Brasil. Zumbi lutou até a morte por esta cultura e pela liberdade do seu povo.

O dia da consciência negra surgiu para lembrar o quanto os negros sofreram, desde a colonização do Brasil, suas lutas, suas conquistas. Mas também serve para homenagear àqueles que lutaram pelos direitos da raça e seus principais feitos.

Não acredito que o dia seja para parabenizarmos ninguém. Nem os negros, nem os brancos que dizem reconhecer a importância dos negros para a construção do Brasil. É sim um dia de muita reflexão sobre nossas ações em relação ao tema. Infelizmente, não temos muita memória, quando digo memória falo de registros históricos, sobre o negro e sua cultura, o que dificulta muito o nosso reconhecimento e conhecimento.

De certa forma, o dia 20 nos ajuda a manter algum laço com nossa identidade e passado. Entretanto, não podemos esquecer que, como diz o Aurélio, a palavra consciência pode nos levar à duas direções: consciência do individuo negro sobre sua própria realidade e consciência do individuo branco sobre os atos realizados.

O dia se perde quando fazemos um post bonitinho nas redes sociais para falar o quanto nos importamos ou quanto sua marca se importa. Sinceramente, me senti tocada apenas por duas postagens que vi nas redes. Uma, falava: feliz dia da paciência negra e outra era um trecho da fala de Morgan Freeman que dizia: “O dia em que pararmos de nos preocupar com Consciência Negra, Amarela ou Branca e nos preocuparmos com Consciência Humana, o racismo desaparece.”

No primeiro caso, refleti sobre o quanto a mobilização acontece apenas em um dia, semana ou, no máximo, no mês de novembro. Vi vários militantes com a agenda cheia este mês e muita exclusão nos outros 11 meses, o que me faz pensar o quanto é clichê mas importante deixar claro que o dia é para refletir e buscar conhecimento histórico, mas os atos de igualdade devem acontecer todos os dias.

Este último pensamento me leva diretamente à fala de Morgan Freeman. Ao mesmo tempo que é importante celebrar, quando digo celebrar não é fazer uma festinha fútil com um belo cartaz negro, é importante levar em consideração o por quê da necessidade de um dia especifico para colocar luz sobre o negro e suas questões. Realmente, se este dia não fosse necessário, poderíamos entender mais sobre a consciência humana.

Por outro lado, vi várias postagens de pessoas negras orgulhosas por quem são, seus traços e sua história. Mas, por favor, não caia no conto do amiguinho que só fala com você quando acha que é popular na escola. Muita gente/marca está querendo surfar nesse movimento como uma forma de autopromoção e, em troca, não oferecem nada sólido e consistente. Isso faz com que mergulhemos mais uma vez em um afastamento sobre nós, nossas questões, nossa história!

Tenha uma boa reflexão de dia da consciência negra. Eu desabafei aqui sobre a minha e, não preciso nem falar que não há certo nem errado.